artes visuais

Haruo Ohara. “Enxada no ar”

Enxada no ar, 1948

Provavelmente ele estava agachado no chão, enquadrando a imagem para que pudéssemos ter toda a atenção para esse objeto tão importante para o trabalhador da roça: a enxada.

A política na arte, já mencionou Rancière em grande parte de seus textos, se encontra a partir das fissuras que a imagem pode realizar num dado tecido sensível comum a uma partilha. Para ele, o teor político está menos nos discursos literais (textuais) nos conteúdos das obras, e mais no modo como, esteticamente, elas criam suspensões a um/a espectador/a.

A representação do homem que está diante de nós, faz política. Faz política pois transgride o uso comum do trabalho explorador de imigrantes em zonas rurais do Brasil. Faz política, pois rompe com o uso produtivista de uma ferramenta, e o transforma em brinquedo, em momento anti-produtivo do brincar (crianças são seres anti-capitalistas). O filósofo Jacques Rancière comenta por exemplo, a carga política do movimento compreendido como Noite dos Operários. Nesses eventos, ocorridos durante o séc XVIII, vários operários, após o expediente de trabalho, se reuniam para poder ler literatura, revogando a sua condição de trabalhador produtivista. Isso seria entendido portanto como a recusa do lugar predeterminado no sistema produtivo (trabalhadores) que o capitalismo lhes impunha.

Tal condição dessa potência política colocada por Rancière, definem as próprias práticas do fotógrafo Haruo Ohara. Ele, como imigrante japonês no Brasil, após trabalhar na roça, utilizava-se do tempo de retorno às casas para retratar trabalhadores nikkeys. Desse modo, vale destacar à visualidade revelada em suas imagens, tratando-se de imagens não convencionais. Haruo Ohara opta em não mostrar o imigrante sofrendo em seu trabalho pesado no campo. Não registra os seus momentos melancólicos nostálgicos ao estar distante de um acolhimento do seu país de origem, ou até mesmo das desilusões envolvidas pelos ambos os governos do Japão e Brasil, o qual prometeram algo o qual nunca existiu: a tão sonhada terra prometida. Isso porque, os imigrantes japoneses chegaram ao Brasil graças a um acordo entre ambos os países pelo qual prometia um enriquecimento, a partir de um trabalho temporário que não duraria mais do que 3 anos. Os primeiros japoneses que aqui vieram, tinham a crença de que não iriam construir nenhum laço no Brasil, com o plano de retornar o mais rápido possível para seu país de origem. Contudo, não foi bem isso que aconteceu.

A partir de um trabalho rígido mal remunerado, muitos se endividaram e após 3 anos, foram entendendo que o sonho de retornar ao Japão ia se distanciando. A isso, talvez como uma hipótese, resulta-se na difícil e demorada assimilação dessa cultura oriental no Brasil. Os japoneses, muito fechados, aos poucos foram deixando de ser japoneses. O solo e a temperatura, traziam outros nutrientes para a planta, que dessa forma, cresceu e floresceu de maneira diferente. Ao mesmo tempo em que foram perdendo a sua identidade, evitaram tornar-se brasileiros, e com isso as primeiras gerações enfrentavam o limbo dessa linha identitária cruzada, esse ponto de interrogação. Depois de décadas é que a desilusão fora digerida, e a aceitação de condição de brasileiro, fez com que os imigrantes aos poucos se entendesse como pertencentes a essa terra, como plantas dessa terra. Haruo Ohara no entanto, desvia ao propor apresentar a imagem de um imigrante de outra forma, algo que vai além do sofrimento, do trabalho e da saudade. Ele mostra uma proposta de um japonês que agora brasileiro.

Por registrar as fotos após o expediente de trabalho, temos o lusco-fusco da tarde, trazendo uma característica semelhante nos conjuntos de sua imagem. Sempre um contraste, às vezes com muita contraluz, evidenciando as cores pretas e brancas. Desse modo, a partir de sua forte luz do fim de tarde e da paisagem retratada – que sempre ocupa uma grande porção de área do enquadramento – surge aí, uma paisagem retratada não-japonesa.

Mesmo tratando-se de uma paisagem tropical marcada por sua geografia, o modo de compor a cena tem seu aspecto oriental. Na imagem Enxada no ar, a figura do trabalhador com sua enxada ocupa uma pequena parcela do terço esquerdo da composição. Enquanto na parte inferior, apenas uma pequena fração de preto da vegetação dá margem à imensidão do céu, o qual ocupa quase 2/3 de área de toda a imagem. É uma fotografia que nos faz respirar, pois é preenchida por sua maioria de ar e de frescor. O céu indica a imensidão que é a natureza, e a pequenez que somos. O elemento da enxada, liga verticalmente o céu e a terra. Vale ressaltar portanto, que o fundo é tão importante quanto à figura, e esse vazio gerado pelo céu, talvez venha a partir das composições do nihonga budistas, ou do conceito de 間 (ma).

O 間 significa espaço, e também é entendido como um conceito estético oriental. O 間 valoriza a pausa, o silêncio, o branco e o hiato como elementos compositivos tão importantes quanto a figura, quanto a materialidade. É como se o positivo, dependesse para a sua existência impreterivelmente do negativo, ou como se o fundo valesse tanto quanto a figura. Muitas das composições de Haruo Ohara trazem elementos do cotidiano brasileiro, situações vivenciadas por imigrantes daqui, e que entretanto, a partir de seus traços formalistas contido no seu gesto de fotografar e de enquadrar uma imagem, apresenta toda sua bagagem estética oriental. Essa confluência às vezes esquizofrênica, as vezes desviante, são sinais para o entendimento de uma identidade que muito tempo foi recusada, uma compreensão mais profunda do que consiste ser nippo-brasileiro: um indivíduo que não mais japonês, mas um vir-a-ser.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s